Em entrevista à Carta Capital, o filósofo Vladimir Safatle
fala sobre a crise de representação, pela qual passa a sociedade brasileira. “Há uma consciência cada vez mais clara
do esgotamento do modelo de democracia parlamentar
liberal. As pessoas não se sentem mais representadas. Isso não é
local, é global. Aparece em vários locais do mundo, até da mesma
maneira em relação aos partidos políticos e à imprensa. Essa ideia de que
a imprensa poderia falar em nome da população (...)Isso significa
que eles sentem que existe uma crise de representatividade muito mais
ampla dos atores políticos da vida social contemporânea.”
Uma situação estranha, para não dizer paradoxal, na qual as pessoas saem de suas casas para votarem em seus políticos, que supostamente se aproximam de seu modo de pensar, mas na esfera do poder não representam os eleitores. Os políticos são corpos estranhos na sociedade brasileira, ou alienígenas, como a revista Veja expôs em sua capa mais recente (datada de 10 de Julho).
Safatle argumenta sobre o esgotamento da democracia parlamentar liberal, defendendo que outras formas de representação devem ser incentivas, em que prevaleça maior participação popular direta. “Porque não implementar uma ideia usada na Islândia e outros lugares, onde a participação popular tem o poder de veto? Se 10% da população se manifestar sobre uma lei do Parlamento ela é vetada e deve haver uma consulta por sufrágio.”
Por outro lado, não seria interessante refletir até que ponto a crise de representatividade também não seja um reflexo da sociedade? O que pensa a população? O que ela deseja, ou melhor, quais as políticas concretas o povo deseja que sejam implementadas? Esse é um caminho interessante, mas não quero ter essa audácia de tentar interpretar o que o povo pensa.
Nesse sentido, mais interessante seria pensar por que a esfera política se tornou tão estranha à população brasileira, ou seja, por que o Estado, principalmente o Parlamento, não representa de fato os interesses civis, apenas particulares.
O professor Luiz Gonzaga Belluzzo, em seu novo livro O capital e suas metamorfoses, demonstra como os interesses do Estado ficam à mercê dos privados: “O poder econômico se infiltra no Estado de forma a constituir o que Noberto Bobbio chamou de sottogoverno – o que inclui sua influência no processo eleitoral, a propagação desimpedida da corrupção dos funcionários do Estado e o controle da informação da opinião – suscitam a emergência do criptogoverno, a ressurreição da não-transparência sistemática dos atos da burocracia, justificada por razões de Estado.”
Na esfera internacional, os interesses privados têm forçado os governos nacionais a reduzirem os benefícios dados às classes mais sensíveis à volatilidade do mercado. Nos últimos quarenta anos, os mecanismos de proteção oferecido pelo Estado de bem-estar social está perdendo espaço para os mecanismo de mercado.
No Brasil, os interesses privados se infiltraram diariamente nas ações estatais. A simbiose entre políticos e financiadores está no fato de que os últimos financiam toda a campanha dos primeiros, e estes agem de maneira a preservar os interesses de seus financiadores.
Como escreveu Emir Sader. “A existência de grande número de lobbies no Congresso – do agronegócio, da educação privada, dos planos privados de saúde, dos proprietários privados dos meios de comunicação, das igrejas evangélicas, entre outros – expressa, de forma mais aberta, a presença dos interesses privados no Congresso.” Ou seja, questões de interesse coletivo que interferem nos negócios privados são sempre jogados para escanteio.
Um outro exemplo, mais indireto, sobre como os interesses privados dominam a esfera estatal é a domínio da economia do rentismo. Longe de desejar a eutanásia do rentismo, como queria Keynes, a questão é que juros altos, além de impedir o desenvolvimento econômico , em que emprego e renda são gerados, faz com que o governo corte gastos e aumentar impostos para manter um superávit primário, necessário ao pagamento de juros, o que inverta a redistribuição de renda: dos mais pobres para os mais ricos. Não sem razão, por mais que recentes os juros viessem em queda, o Brasil é o país dos juros mais altos do mundo.
A democracia dos lobbies tem suplantado a democracia liberal, em que esta última deveria se caracterizar pela prevalência dos interesses coletivos diante dos privados. Cada vez mais, no Brasil, o particular suplanta o coletivo, o que impede que questões sociais de interesse da população sejam colocados em segundo plano. Nesse sentido, a esfera política só poderia ser estranha à população brasileira.
Nenhum comentário:
Postar um comentário