“Em comparação
com a expansão de crédito do sistema bancário com reserva fracionária e a
manipulação monetária dos governos e bancos centrais, a atividade criminosa do
falsificador de moeda é brincadeira de criança com consequências sociais
praticamente imperceptíveis”(Jesus Huerta de Soto)
INTRODUÇÃO:
DEPÓSITOS, EMPRÉSTIMOS E OS PRINCÍPIOS TRADICIONAIS DO DIREITO ROMANO
As crises
econômicas são sempre danosas à sociedade e a seus participantes. Mas como se
formam os chamados ciclos econômicos? E qual a relação existente entre estes e
conceitos como moeda e crédito bancário? Em sua monumental obra “Moeda, crédito
bancário e ciclos econômicos”, o professor Jesus Huerta de Soto demonstra como
a crises econômicas surgem e se desenvolvem. Mais ainda, o autor demonstra como
as descoordenações econômicas são causadas pela expansão do crédito bancário
sem que tenha havido qualquer aumento na poupança. Esse crédito criado do nada
só é possível, porque os bancos utilizam os depósitos à vista feitos por seus
clientes para aumentar o crédito em circulação. Uma clara violação, segundo o
autor, dos princípios tradicionais do direito romano.
De
Soto começa diferenciando empréstimos e depósitos. Os primeiros têm como
característica fundamental a troca entre bens presentes por bens futuros. Ou
seja, quando o emprestador empresta dinheiro (bem presente) ao banco, por
exemplo, este tem um determinado prazo (componente tempo) para devolver a
quantia emprestada mais uma taxa de juros (bem futuro). Já os depósitos não
possuem esse componente tempo nem de troca. Quando alguém deposita dinheiro no
banco, a função deste é manter disponível ao depositante a mesma quantidade e
qualidade do bem depositado. Se o cliente depositou mil reais, o banco precisa
manter em caixa o equivalente em quantia e qualidade para que sempre que o depositante
demandar a devolução o banco possa fazê-lo.
No
caso de depósito, portanto, o banco atua como um armazém, a qual a função é de
manter o equivalente em qualidade e quantidade do depósito para poder devolver
ao depositante sempre que necessitar. Essa é o conceito jurídico de depósito,
segundo a tradição romana. Dessa maneira, quando um banqueiro utiliza esse
depósito para financiar atividades privadas, portanto sem guardar o
equivalente, há uma violação do príncipio jurídico. Utilizar os depósito à
vista para expandir o crédito, portanto, é algo ilegítimo do ponto de vista
jurídico.
Tal
prática de utilizar os depósitos, mantendo apenas um determinado coeficiente
destes e utilizando o resto para expandir o crédito é uma violação dos
princípios do direito, o qual afirma que o bancos devem manter um coeficiente
de 100% dos depósitos para que sempre que o depositante demandar, o banco possa
reembolsá-lo. Porém, ao manter apenas um determinado coeficiente dos depósitos
(reserva fracionária), o bancos atuam de forma a criar dinheiro do nada (como o
autor demonstra através de fórmula matemáticas, em que um depósito de 1.000.000
pode gerar, quandos os bancos expandem crédito de forma simultânea, em 9.000.000
de novas moeda entrando em circulação) colocam em risco a própria economia,
como se verá posteriormente.
POUPANÇA, A
ESTRUTURA PRODUTIVA E O CRESCIMENTO ECONÔMICO
Após
descrever toda a questão jurídica e os exemplos históricos de bancos que se
utilizam do sistema de 100% de coeficiente de depósitos, como o Banco de
Asmterdã, e os bancos que utilizavam o sistema de reservas fracionárias, Huerta
de Soto demonstra como funciona a estrutura produtiva da economia. Através do
exemplo simples de Robinson Crusoé, o autor mostra como a popupança é um dos
elementos mais importantes para que a economia possa se tornar mais produtiva.
Robinson
Crusoé pega amoras nas árvores com a mão. Porém, ele percebe que existem
árvores muito altas e que para isso necessitaria de um instrumento que pudesse
chacalhar os galhos para pegar mais alimento. Para isso, ele irá construir uma
lança, por exemplo. Construí-la leva tempo e Crusoé necessitará diminuir seu
consumo de amoras para que durante o tempo em que ele estiver construindo sua
lança, ele possa se alimentar. Portanto, ao invés de comer três amoras, ele
passa a comer somente duas e poupando uma. A partir do momento em que ele
acredita ter poupado bastante ele dá início ao seu projeto. Após a sua
conclusão, o solitário da ilha poderá pegar mais amoras, aumentando a sua
produtividade e o seu consumo.
A
estrutura produtiva da economia em geral, por mais complexa que seja, funciona
com o mesmo raciocínio. Os bens de capital, como máquinas, por exemplo, ajudam
a aumentar a produtividade econômica, aumentando a quantidade e a qualidade dos
bens de consumo. É por isso que para De Soto, quanto mais bens de capital e
mais etapas na cadeia produtiva, mais rica será a economia. Mas esse aumento na
produtividade somente é possível, devido à poupança, a qual libera recursos dos
setores de bens de consumo (mais próximos do final) para os mais afastados do
consumo, além de permitir a manutenção da sociedade, durante o tempo em que a
produção, com mais epatas agora, durar. Assim como as amoras poupadas ajudavam
Crusoé a se manter durante o período de produção, a abstenção do consumo
permite que novos projetos possam ser feitos.
O CRESCIMENTO
SUSTENTÁVEL: POUPANÇA E NOVOS PROJETOS NA ESTRUTURA PRODUTIVA
Preferência
temporal é o nome que se dá ao fato de que os seres humanos tendem a valorizar
mais o bens presente em relação os bens futuros. Taxa de juros reflete essess
desejos humanos. Quando a sociedade decide poupar, ou seja, deixa de consumir
bens presentes para receber bens futuros, há uma queda nas taxas de juros, pois
há mais recursos disponíveis. Quando ocorre o contrário, as taxas de juros
aumentam.
Dessa
maneira, sempre que a população decidir poupar, portanto se abster do consumo,
a taxa de lucros dos setores mais próximos do consumo cairão e os preço dos
bens de capital irão aumentar, fazendo com que a produção nas etapas mais
afastadas do consumo sejam viáveis. Projetos que antes não eram agora se tornam
lucrativos. A poupança permite que recursos sejam liberados para tais setores e
que com a queda no preço dos bens de consumo, devido à queda na demanda, dá-se
o chamado “Efeito-Ricardo”, em que com o aumento dos salários reais, devido à
queda no preço dos bens de consumo, a mão-de-obra é trocada por máquinas,
gerando uma produção mais capital-intensiva.
É
dessa maneira, que com mais etapas na cadeia produtiva, devido ao novos
projetos, a produção de bens de consumo tende a aumentar no futuro. Da mesma
forma, como a produção de amoras aumentou, por causa de um incremento na
produção (a lança), a economia se desenvolve de maneira mais sustentável,
devido à poupança, a qual permite que novas etapas sejam implementadas. No futuro,
haverá, portanto, mais e melhores bens à disposição da sociedade.
CRESCIMENTO
INSUSTENTÁVEL: A EXPANSÃO DO CRÉDITO SEM POUPANÇA
Porém, como
demonstra De Soto, o bancos ao trabalharem com um coeficiente fracionário dos
depósitos (e não com 100%) faz com que o crédito seja expandido sem que tenha
havido qualquer aumento da poupança. Essa expansão de crédito “fantasma” acaba
por acarretar na queda dos juros. O resultado é praticamente o mesmo da queda
gerada pelo aumento da poupança.
A
queda nos juros faz com que o preço dos bens de capital aumente e os
empresários são levados a crer que há mais recursos disponíveis, por
acreditarem que houve aumento na poupança e, portanto, abstenção do consumo. Os
empresários das etapas mais afastadas começavam a investir em novos projetos,
que antes não era lucrativos, mas agora o são. A economia cresce. Só que, com o
decorrer do tempo, os empresários irão ver que não há recursos suficientes,
pois estes não foram liberados dos setores mais próximos do consumo, já que a
poupulação continua consumindo. O que houve foi um excesso de investimentos nos
setores mais afastados do consumo e uma escassez nos últimos. Dar-se-á um
processo de reversão desse boom artificial.
SEIS EFEITOS
MICROECONÔMICOS QUE REVERTEM O PROCESSO DO BOOM
ARTIFICIAL
Huerta
de Soto descreve as seis etapas que levam o crescimento econômico artificial a
se reverter gerando uma crise econômica.
1 – Há um aumento nos fatores originais
de produção, devido a uma maior demanda deles por causa do aumento do crédito
sem qualquer poupança prévia. E também, porque como não houve liberação dos
fatores de produção dos setores mais próximos do consumo, há uma maior
concorrência entre os empresários por esse fatores. Com esse aumento, os novos
projetos tornam-se mais caros do que eram, quando foram concebidos.
2 – O preço dos bens de consumo
aumentam, porque com o aumento dos fatores de produção originais, o rendimento
monetário dos bens de consumo aumentam. Também, com o aumento de novas etapas
da produção, há uma queda na produção e na chegada dos bens de consumo, que
aumenta o seu preço, devido a maior demanda por eles.
3 – Com a subida nos preços das etapas
mais próximas ao consumo, os lucros desses setores aumentam, enquanto os mais
afastados das etapas finais, diminuem. É nesse momento em que os empresários
desses setores notam que é hora de retirar os projetos mais capital-intenviso e
direcionar para os setores mais próximos do consumo.
4 – Da mesma maneira como ocorre com
quando há um crescimento na poupança, no crescimento artificial gerado pela
expansão de crédito também faz com que a mão-de-obra seja substituída por
máquina (Efeito Ricardo). Após o aumento do preço dos bens de consumo, há uma
tendência em reverter esse processo, ou seja, substituindo máquinas por
mão-obra, tornando a produção menos capital-intensiva.
5 – Há um aumento nas taxas de juros,
decorrentes da contração do crédito.
6 – Enfim, é preciso reajustar a
produção transferindo os projetos das etapas mais afastadas do consumo para as
mais próximos. É necessário também liquidar e eliminar os projetos não
rentáveis. Dessa forma, a crise se dá nos setores mais afastados do consumo.
Ou
seja, a conclusão inevitável é que a partir do momento em que os bancos
expandem o crédito sem qualquer poupança prévia, isso gerará um crescimento
econômica artificial que levará à crises econômicas. É ao liquidar e transferir
os novos projetos que se inicia a recuperação econômica. Por isso, quanto mais
livre for a economia, menos doloroso será esse período. Quando mais difícil for
esse processo de eliminação e transferência do projetos, seja devido à
continuidade da expansão do crédito ou porque o Estado intervém, mais difícil
será a recuperação econômica.
CONCLUSÃO: UM
SISTEMA BANCÁRIO LIVRE , PRINCÍPIOS JURÍDICOS TRADICIONAIS E A SOCIEDADE
Ao demonstrar
como o crédito bancário criado do nada gera os ciclos econômicos, Huerta de
Soto defende que o sistema bancário seja livre, sem qualquer influência de uma
entidade como o Banco Central, que além de coordenar a expansão de crédito, não
passa de um órgão central, que estará sempre à mercê dos políticos e dos
banqueiros para socorrê-los em momentos de apuros. Além do sistema ser livre, é
preciso que os princípios tradicionais do direito, como a reserva de 100% de
coeficiente dos depósitos, sejam respeitados.
Por
mais que um sistema bancário seja livre, mas que ainda utilize as reservas
fracionárias, as crises econômicas continuarão a existir. Quando há um Banco
Central, os bancos podem expandir o crédito de maneira irresponsável, pois esse
instituição central sempre irá socorrer em caso de corrida bancária, ou seja,
quando os depositantes desejarem seus depósitos e os bancos não puderem
devolvê-los. Isso estimula um comportamento irresponsável por parte dos
banqueiros. Por outro lado, quando não há esse emprestador de última instância
e coordenador da expansão creditícia, os banqueiros ficam mais cautelosos em
suas aitividades de crédito. As crises se tornam menos fortes, porém continuam
a existir.
Em
sistema com 100% de coeficientes dos depósitos, não haverá expansão do crédito
do nada e, que, portanto, a economia só poderá crescer de maneira sustentável
somente quando houver poupança, ou seja, redução do consumo. Gerando, dessa
maneira, uma produção mais capital-intensiva, e com o decorrer do tempo
aumentando a quantidade e qualidade dos bens de consumo.
Para
que a economia possa crescer sem esses ciclos econômicos, que só empobrecem a
sociedade, é preciso que a moeda não seja imposta por um órgão central, mas,
sim, resultado das relações sociais, da ordem espontânea. Provavelmente o ouro
tornar-se-ia o padrão-monetário. Além do mais é necessário que se tenha
liberdade bancária e, principalmente, os princípios tradicionais do direito,
que tornam ilegítimo o sistema de reserva fracionária, causador dos distúrbios
econômicos.
Através
desses três passos, a economia poderá se desenvolver e princípios como o
trabalho duro, pensamento no longo prazo e respeito aos contratos possam ser
cultivados, em constraste com um sistema que gera crescimentos econômicos rápidos,
mas artificiais, e faz com que os contratos e os princípios tradicionais sejam
deixados de lado. É por isso que a obra de Hurta de Soto precisa ser lida e
para que se possa trasnformar uma sociedade maníaco-depressiva em uma sociedade
mais próspera economicamente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário