Gastou-se e ainda se gastam tintas e mais tintas para
compreender o capitalismo, seja para dissertar sobre suas mazelas, seja para
tratar de suas benevolências. Em “Ensaios sobre o capitalismo no século XX”,
uma seleção de artigos publicados na mídia, o professor Luiz Gonzaga de Mello
Belluzzo, com a lucidez e clareza de um grande intelectual analisa o
capitalismo tanto sob o ponto de vista teórico, como as suas transformações
durante o século XX.
No artigo de abertura, “O inimigo assusta os mercados”, o professor
Belluzzo, de maneira simples e clara, faz toda uma trajetória histórica do
capitalismo no século XX. A Primeira Guerra Mundial colocou fim à Ordem Liberal
Burguesa, em que prevaleciam o padrão-ouro, a concorrência entre a potência
hegemônica, a Inglaterra, e as novas potências industriais, Alemanha e Estados
Unidos. Por outro lado, as massas eram excluídas do cenário político. Porém, a
carnificina da guerra rompeu com a noção de que a sociedade, característica do
século XIX, sempre caminhava para o progresso.
Os anos após a I Guerra Mundial foram uma tentativa de
retornar à Ordem Liberal Burguesa, em que os mecanismo de mercado prevaleciam.
A volta do padrão-ouro a qualquer custo teve como consequências tanto a queda
dos preços quanto à desvalorização da riqueza, como escreveu o autor. Mais, sem
uma hegemonia internacional, as rivalidades entre os países se alastrou: as
desvalorizações competitivas paralisaram o comércio internacional.
Com a Grande Depressão, e como consequência, o aparecimento
do nazi-fascismo colocaram em dúvida a fé nos mercados livres. As políticas dos
anos 30, tanto o New Deal quanto as
políticas econômicas do Nazismo foram no sentido de colocar os automatismo do
mercado ao controle da sociedade, na figura do Estado.
Crises, os horrores do nazi-fascismo e a guerra trouxe uma
consciência de que era necessário reestruturas o capitalismo. É nesse sentido
em que se criaram instituições e regras para comandar o sistema econômico
internacional: foram criados acordos, como o de Bretton Woods, em que limita-se
o controle de capitais e impunha paridades fixas, mas ajustáveis.
Diferentemente do pós-primeira guerra, os Estados Unidos exerceram o papel de
potência hegemônica, de maneira benigna, diga-se de passagem, em o espírito do New Deal estava presente: surgiram,
então, os planos de reconstrução do Japão e da Europa.
Desse capitalismo reestruturado, colocado sob controle da
sociedade, o Estado teve papel relevante para conduzir ao pleno emprego e
amenizar os problemas sociais. Tanto a política fiscal quanto o crédito estavam
voltados para o crescimento econômico. Nesse sentido, os mercados financeiros e
os próprios bancos foram fortemente controlados para se evitarem crises, como a
de 1929. Não à toa, o crescimento gerado nesse período foi denominado de “Anos
dourados.”
O fim do chamado “Consenso Keynesiano”, como demonstra o
professor Belluzzo, em grande parte se deve ao seu próprio sucesso: elevação do
padrão de vida das massas, a reconstrução do Japão e da Alemanha. Porém, por
outro lado, os déficits na balança comercial americana forçou uma maior
liquidez de dólares no Mundo. Foi nesse sentido, o gesto de Nixon de abolir a
conversibilidade do dólar em relação ao ouro. “O sistema de paridades fixas,
mas ajustáveis, foi substituído pelo de flutuações sujas.”
Inconformada com os controles, a alta finança pressionava
constantemente o Estado para uma maior liberalização financeira. Como argumenta
o professor, as mudanças ocorridas nos anos 70 e 80 devem ser entendidas como
políticas voltaradas para o predomínio da alta finança. O gesto dos Estados
Unidos de subir unilateralmente os juros, em 1979, colocou o Mundo diante do
poder americano e do dólar forte.
Diante dos movimentos do capital e do comando das economias
centrais, na figura das grandes empresas limitam de maneira categórica o raio
de ação dos Estados nacionais, fundamentais nos “anos dourados”. Como o
professor Belluzzo demonstra em outros artigos, a livre movimentação de
capitais impõe forte valorização da moeda e aumento de juros nos países
periféricos dificultando que esses Estados-nacionais possam implementar
políticas próprias de desenvolvimento.
Desemprego, conflitos sociais e dificuldades econômicas
geradas tanto por esse movimento de globalização, cuja hierarquia tem no topo
os Estados Unidos, e pela liberalização, feita por organismos internacionais
sob comando americano, tanto dos mercados financeiros quanto das economias em
geral trouxe o o desemprego e forte conflitos sociais, bem diferente da época
do capitalismo reestruturado dos “anos dourados.”
Como descrito, as políticas dos anos 30 e dos anos pós-guerra
tiveram como fundamentação o controle dos automatismos do mercado pela
sociedade. O Estado teve um papel importante para ajudar os excluídos das
trocas mercantis e para o pleno emprego. Mas mais importante do que as
políticas efetivas foi o espírito que guiou a ação da sociedade no pós-guerra.
Como escreveu o professor Belluzzo, o individualismo foi suplantado pela
solidariedade.
Solidariedade essa expressa na dívida por parte da sociedade
com os demais indivíduos: é o reconhecimento dos direitos dos cidadãos a terem
uma vida segura e tranquila. “Dívida com sua subsistência, com sua dignidade,
com sua educação, com seu trabalho, com sua velhice.” Por outro lado, o indivíduo
precisa retribuir através do pagamento de impostos, do respeito à lei e a
cooperação social. Foi esse arranjo de dívidas que permitiram que os “anos
dourados” fossem dourados, em que a situação das massas não só melhoraram
materialmente, mas também a segurança e a tranquilidade foram garantidas.
Diferentemente, no capitalismo destravado não existem
direitos, a não ser que estejam no sistema de trocas mercantis. O
individualismo é a forma predominante dos mecanismos de mercado: tanto o
sucesso quanto o fracasso são vistos como atos individuais. Nesse arranjo, não
se permite àquele que fracassou outra escolha que não o ressentimento contra os
outros. É nesse sentido que podem ser compreendidos os atos de racismo e
xenofobia tão presente em nossos tempos.
A suposta “racionalidade” do homem econômico e dos mercados
que têm levados à redução dos custos e ao desemprego, e a mercantilização da
vida, em que predominam o “amor ao dinheiro”, produzida pela sociedade
capitalista, destroem quaisquer outros sentimentos que não relacionados à
riqueza. No jogo da acumulação da riqueza e por uma suposta “racionalidade” dos
mecanismo de mercado, a insegurança e os conflitos sociais estão cada vez mais
presentes nas sociedades. Com a escassez dos mecanismos de reconhecimento
social não-monetários – como os direitos dos cidadãos – os indivíduos que não
conseguem acumular riqueza de maneira satisfatória estão condenados à exclusão
do sistema.
Nesse sentido, os interesses das grandes empresas e da alta
finança penetram na esfera estatal. Os interesses dos poderosos são preservados
e\ou ganham mais força, enquanto os “perdedores” do capitalismo perdem qualquer
chance de representação na esfera política, aquela capaz de controlar,
justamente, os automatismos do mercado. As regras do jogo, nesse sistema de
acumulação de capital a qualquer custo, são mudadas constantemente para que os
interesses privadas possam prevalecer. Enquanto a democracia se combinava com o
capitalismo controlado pela sociedade, o mesmo não válido quando a relação se
altera para o capitalismo destravado.
O professor Belluzzo lança mão de
grandes autores para expor suas críticas ao capitalismo destravado. De Marx a
Gray, passando por Polanyi, Keynes e Hobson, o autor demonstra de maneira
brilhante como esses críticos pensaram o capitalismo e suas relações.
O pensamento de Keynes
é mais do que presente na análise do professor Belluzzo. Esse autor clássico
destrinchou os mecanismos do capitalismo de maneira brilhante. As decisões
econômicas estão nas mãos dos possuidores de riqueza, cujo instinto é a de
sempre acumular sempre mais riqueza. As suas ações são feitas sob condições de
incerteza radical, ou seja, as decisões são tomadas entre o abismo do medo e da
ambição. Dessa maneira, nem sempre, como afirmam os liberais, os interesses
privadas levam ao bem-estar coletivo: ao procurar acumular riqueza, esta nem
sempre se torna social, mas pode se tornar anti-social, no sentido de que os
possuidores de riqueza procurarão enriquecer através ativos líquidos em detrimento
do investimento e da produção de emprego e renda.
Outro economista eu tratou dessa questão da classe financeira
foi Hobson, o qual demonstrou como o surgimento da grande empresa,
principalmente a americana, demandou o surgimento de uma nova classe
financeira, cujo papel foi desenvolver o chamado capital fictício e aumentar a
especulação em torno desse ativos infláveis de acordo com a sua capacidade de
gerar ganhos e não com alguma capacidade concreta.
Polanyi demonstrou como o capitalismo é um “moinho satânico”,
em que na ânsia de acumular riqueza, descreve Belluzzo analisando Polanyi, os
possuidores de riqueza precisam constantemente diminuir o trabalho socialmente
necessário e inovar para derrubar e esmagar os concorrentes. O resultado dessa guerra
é o desemprego, baixos salários, inseguranças e desigualdades sociais. Essas
são as consequências do “moinho satânico”.
John Gray foi além, como mostra o professor Belluzzo, a
voracidade do capitalismo sempre fora contrabalanceada por instituições
intermediárias, como governos, igrejas, famílias. Porém, cada vez mais, o
“moinho satânico”, para citar o já citado Polanyi, do capitalismo tende a
eliminar essas instituições com o intuito de mercantilizar todas as esferas da
vida. Marx foi nesse sentido, a de demonstrar qu o avanço do capitalismo
entraria em choque com os ideais da liberdade, igualdade e fraternidade. Ao
invés de trazer a prosperidade, o capitalismo trouxe insegurança, desigualdade
e a mercantilização da vida, em que as relações sociais se tornam meras trocas
mercantis. O capitalismo é uma fábrica de tragédias, segundo Marx.
Mesmo sendo uma coletânea de artigos publicados na mídia, “Ensaio sobre o capitalismo no século XX” do professor Luiz Gonzaga Belluzzo é uma profunda reflexão sobre o capitalismo e suas transformações durante a história. Mesclando teoria e história, Belluzzo demonstra de maneira brilhante o funcionamento do capitalismo destravado e suas consequências. Mas mostra também, diferentemente do credo “não há alternativa”, é falso. A história e a teoria demonstram que há alternativa e que não está tão longe assim aos olhos da história.
Mesmo sendo uma coletânea de artigos publicados na mídia, “Ensaio sobre o capitalismo no século XX” do professor Luiz Gonzaga Belluzzo é uma profunda reflexão sobre o capitalismo e suas transformações durante a história. Mesclando teoria e história, Belluzzo demonstra de maneira brilhante o funcionamento do capitalismo destravado e suas consequências. Mas mostra também, diferentemente do credo “não há alternativa”, é falso. A história e a teoria demonstram que há alternativa e que não está tão longe assim aos olhos da história.
Eu nunca vi um monte de merda tão grande quanto o agrupado neste texto.
ResponderExcluirKeynesianismo é uma falácia medíocre e este Belluzzo é uma das maiores antas do Brasil, que segue o idiota do Keynes.
Você pelo visto é o típico idiota que aceita qualquer coisa que as dementes universidades brasileiras vomitam para seu rebanho de alunos.
Certamente é incapaz de raciocinar, pois demonstrou isso.